Franca, 19 de Setembro de 2019

Diocese de Franca

CNBB - Regional Sul 1

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30/07/2019 - 18º Domingo do Tempo Comum


Lucas 12,13-21 narra um episódio presente só no seu Evangelho. Faz parte da descrição da viagem de Jesus, desde a Galiléia até Jerusalém. No caminho, alguém pede-lhe para ser mediador na repartição de uma herança.

Na época, a herança tinha a ver também com a identidade das pessoas (1 Rs 21,1-3) e com a sua sobrevivência (Nm 27,1-11; 36,1-12). O problema maior era a distribuição das terras entre os filhos do falecido pai. Sendo a família grande, havia o perigo de a herança se esfacelar em pequenos pedaços de terra, que já não poderiam garantir a sobrevivência de todos. Por isso, para evitar o esfacelamento ou a desintegração da herança e manter vivo o nome da família, o filho mais velho recebia o dobro dos outros filhos (Dt 21,17; 2 Rs 2,11).

Na sua resposta, Jesus deixa transparecer que ele não foi enviado por Deus para atender ao pedido de arbitrar entre os parentes que brigam entre si por causa da repartição da herança. Mas se aproveita de um fato para deixar lições. Ele se dirige a todos e também a nós hoje: ter cuidado com a ganância, pois quando ela toma conta do nosso coração, não há como repartir a herança com equidade e paz. A nossa vida não depende daquilo que temos, mas daquilo que somos. O valor da vida não consiste em ter muitas coisas, mas sim em ser rico para Deus.

Jesus conta a parábola do homem rico que acumulou bens para ilustrar as suas orientações. É alguém fechado dentro da preocupação com os seus bens. Só pensa em acumular para garantir o seu futuro. Deus lhe disse: “Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?”

A morte é apresentada por Jesus como uma chave para entender o sentido verdadeiro da vida. Ela relativiza tudo, pois mostra o que perece e o que permanece. Quem só busca o ter e esquece o ser, perde tudo na hora da morte. Estão errados aqueles que põem suas esperanças nos bens materiais.

O Livro do Eclesiastes já trazia este ensino (Ecl 1,2; 2,21-23): para que acumular bens nesta vida, se não sabemos para quem vão ficar? “Tudo é vaidade”, diz o autor. Tudo é vazio e sem sentido.

Jesus ensina que é preciso ser rico diante de Deus.

Devemos buscar as coisas do alto, nos ensina Paulo, “onde está Cristo” (Cl 3,1). Buscar as coisas do alto não significa descuidar dos bens da criação e não sermos responsáveis por eles.

Santo Inácio de Loyola nos ensina que “O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano e para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado. Daí se segue que ele deve usar das coisas tanto quanto o ajudam para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Por isso, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas” (EE, 23).

No ser humano há duas dimensões: exterior e interior.

A exterioridade é o que vemos, o que possuímos, o que aparentamos. Tem o seu valor, mas relativo.

A interioridade é o que está no coração, o que sentimos, o que pensamos. É o mais importante e precisa ser cultivada. É a dimensão para Deus.

Como cultivar a nossa dimensão interior? Através da oração, da espiritualidade, das celebrações dos sacramentos, da leitura da Bíblia, da participação na Igreja, da devoção à Maria e aos santos, da prática das virtudes.

Devemos nos revestir do “homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador” (Cl 3,10): com sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, longanimidade, perdão, caridade.

Lembramos os ministros ordenados – diáconos, presbíteros e bispos, e rezamos por essa sublime vocação na Igreja.

Dom Paulo Roberto Beloto,

Bispo Diocesano.