Franca, 23 de Outubro de 2018

Diocese de Franca

CNBB - Regional Sul 1

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04/09/2018 - 23º Domingo do Tempo Comum – Ano B


Marcos 7,31-37 narra a cena da cura do surdo-mudo. O fato aconteceu em terra estrangeira, na “região da Decápole”. O beneficiado pela cura foi um pagão. Isto revela que Deus quer salvar a todos.

O surdo-mudo é um doente, privado da comunicação. Além da deficiência física, sofria as barreiras e os preconceitos da época. A doença era interpretada como um castigo divino por eventuais faltas cometidas, que o excluía da convivência social – ele não tinha condições de dar consentimento ou testemunhar algo.

Na cena, o doente foi levado a Jesus. Alguém intercedeu por ele. A solidariedade abriu caminho para a cura e a liberdade. Jesus se afastou com o homem para fora da multidão e realizou três gestos: pôs os dedos nos seus ouvidos, tocou a sua língua com saliva e erguendo os olhos ao céu, e respirando disse: “Efatá”, que quer dizer: “Abre-te”.

Os gestos e o olhar para o céu indicam que o poder de Jesus vem de Deus. A cura aconteceu através da palavra, provocando abertura ao ouvido e soltando a língua do homem.

Após a cura, Jesus recomendou silêncio. Este apelo faz parte do seu “segredo messiânico”, muito presente no Evangelho de Marcos. As suas ações são compreendidas plenamente no mistério da cruz.

Mas a notícia se espalhou: “Ele tem feito bem todas as coisas” (Mc 7,37). Jesus é aquele que refaz a criação. O pecado destruiu o que Deus fez de bom (Gn 1,31). Com a encarnação do Verbo, tudo se refaz e se reconcilia.

O milagre em terras pagãs foi escolhido por Marcos para transmitir uma mensagem às comunidades de Roma, formadas por uma mistura de gente, com culturas e tradições diferentes, que geravam controvérsias e divisões. Eles não se escutavam e não se entendiam – eram como surdos e mudos. Não havia comunhão.

Jesus não quer uma comunidade assim, mas um espaço onde todos possam viver em fraternidade, diálogo, harmonia, sem exclusão.

A passagem da cura do surdo-mudo era utilizada no caminho catecumenal: o catecúmeno que se apresentava para o Batismo deveria reconhecer sua surdez e mudez, pois isto o impedia de professar sua fé em Cristo ressuscitado. A cura – a conversão o libertava desses limites.

Este milagre de Jesus também é atual. O ser humano só se realiza pelo exercício do amor recebido e doado. Mas essa vocação encontra hoje sérios desafios: ao mesmo tempo em que as tecnologias de comunicação avançam, as pessoas nunca enfrentaram tantas barreiras e distâncias. Há uma crise de relacionamentos. A cultura moderna valoriza a liberdade, a autonomia, os direitos individuais, uma ideia distorcida da sexualidade, a racionalidade, a técnica, a subjetividade, uma ausência de Deus. Alguns elementos são positivos. Outros dificultam, distorcem e ameaçam os relacionamentos, a comunhão e a prática do amor fraterno. Há solidão, exclusão, manipulação das ideias, dos sentimentos e dos valores. O diálogo solidário e respeitoso, a comunicação fraterna e igualitária estão em crise.

A comunhão fraterna caracteriza a identidade, a espiritualidade e a missão dos cristãos. A marca desta comunhão é o amor. Deus é amor e o amor supõe relação. As pessoas não podem viver sem Deus e sem o amor. Somos verdadeiramente humanos em nossa amizade e comunhão com Deus e com as pessoas. A nossa identidade de pessoa está no relacionamento com Deus e com os outros. Foram criados para a alteridade e a reciprocidade. Somos um ser para o outro. A nossa realização só se encontra na oferta e na doação. Só amadurecemos a nossa personalidade quando sabemos doar e conviver com os outros, com as diferenças e com as particularidades.

O diálogo é fundamental na comunhão fraterna. É preciso saber escutar, ter paciência e atenção. É preciso saber escutar com a mente, com a alma, com o coração e com os olhos. É preciso saber acolher. O caminho da verdade está na escuta do outro.

Jesus quer a nossa conversão. Ele quer continuar fazendo o bem. Quer que nos afastemos de nossos problemas e bloqueios, quer tocar em nossos ouvidos e em nossa língua e dizer: “Efatá! Abre-te!”. Precisamos ser curados pela Palavra do Senhor, pelo seu amor e verdade, que nos possibilita a comunhão fraterna.

Deus quer a felicidade dos seus filhos. Ele salva, abre os olhos dos cegos e descerra os ouvidos dos surdos (Is 35,4-5). Escolheu os pobres para serem herdeiros do Reino (Tg 2,5).

Na Encarnação de Jesus, a humanidade é redimida. Seu amor redentor liberta e restaura todas as coisas.

Agora é tarefa dos discípulos e da Igreja continuarem essa missão. O Espírito de Jesus nos impulsiona a testemunhar na fé as maravilhas do Evangelho, que integram as pessoas, geram comunhão fraterna, solidariedade e paz Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano.