Franca, 21 de Novembro de 2017

Diocese de Franca

CNBB - Regional Sul 1

19/08/2016 - Discurso pelo Dia do Padre na Câmara Municipal de Franca



Nós padres homenageados, Pe. Carlos Henrique da Silva Souza, Pe. Rogério
Ruffo e eu, Pe. Leonaldo Cardoso Beneti, queremos em primeiro lugar saudar o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo Diocesano de Franca Dom Paulo Roberto Beloto. Os Reverendíssimo Irmãos Sacerdotes aqui presentes, e aqueles que não puderam vir e que nesta noite representamos. Aos Senhores Diáconos permanentes com suas respectivas Senhoras Esposas. Os religiosos e religiosas e os candidatos ao sacerdócio, os seminaristas aqui presentes. Os féis leigos e leigas aqui representando nossas comunidades paroquias e todos outros fiéis amigos da Diocese de Franca. E de maneira toda especial nossos familiares aqui presentes. Nossos Pais, mães e irmãos.
Saudamos as autoridades civis legitimamente constituídas presentes nesta
casa. Cumprimentamos o Excelentíssimo Sr. Prefeito, Alexandre Ferreira. O
Excelentíssimo Sr. Presidente da Câmara, Marco Antônio Garcia. E na pessoa do Exmo. Sr. Vereador, Miguel Laércio Matias (Laercinho), o autor desta homenagem, saudamos também os outros excelentíssimos vereadores presentes neste ato.
Neste dia a cidade de Franca deseja por este ato solene e público reconhecer
o valor dos padres. Pela lei nº 7.445, de 31 de agosto de 2010 ficou instituído o “Dia municipal do padre”. Haja vista que o dia do padre foi comemorado no último dia quatro deste mês de agosto (04.08) data em que a Igreja Católica em todo mundo celebra a memória de São João Maria Vianney, o patrono dos padres. Em nosso coração, de padres eleitos pelo clero diocesano para estar aqui nesta noite, emergem três reflexões: a política, a Igreja Católica e o Padre.
Em primeiro lugar excelentíssimos senhores desta casa pública, bem como
todos as pessoas que nesta noite estão aqui. Nossa presença, inclusive de nós três padres homenageados, ocorre antes de tudo porque também somos cidadãos. Esta sessão solene ocorre por força de uma lei publicada pela Câmara Municipal que foi aprovada e promulgada. Ora, este ato então ocorre dentro do Estado Democrático de Direito. Mencionado diversas vez na própria Lei Orgânica do Município de Franca, indicado explicitamente na própria Constituição Brasileira quando ao falar dos Direitos e Garantias Fundamentais individuais e coletivas no Art. 5º inciso VI.
2 nos é dito “ é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. ” Sendo assim, como dever e responsabilidade dos vereadores e no exercício da vereança aprovaram este “Dia Municipal do Padre”.
Como cidadãos temos assegurado pela Constituição Nacional, a liberdade de
culto religioso bem como a proteção de nossas celebrações e respeito as nossas liturgias. Se esta Lei deve ser seguida, com muito mais razão que ela seja honrada e reconhecida em uma homenagem aos cidadãos que escolheram livremente a partir de sua consciência viver como servidores da fé, do culto, da caridade e das ações sagradas. Garantir e homenagear está vivência é nada mais nada menos que reconhecer que também os padres, e qualquer outro fiel não estão isentos do Estado de Direito.
Conta-se, no Primeiro Livro dos Reis, que Deus concedeu ao jovem rei
Salomão fazer um pedido por ocasião da sua entronização. Que irá pedir o jovem soberano neste momento tão importante: sucesso, riqueza, uma vida longa, a eliminação dos inimigos? Não pede nada disso; mas sim: «Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal» (1 Re 3, 9). Com esta narração, a Bíblia quer indicar-nos o que deve, em última análise, ser importante para um político. O seu critério último e a motivação para o seu trabalho como político não devem ser o sucesso e menos ainda o lucro material.
A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma ação política efetiva; mas o sucesso há-de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça. «Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de uma grande banda de salteadores? » –
Sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1). Servir o direito e
combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político. Como reconhecemos o que é justo? Como podemos distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro direito e o direito apenas aparente? O pedido de Salomão permanece a questão decisiva perante a qual se encontram também hoje o homem político e a política.
3 Como se reconhece o que é justo? Na história, os ordenamentos jurídicos
foram quase sempre religiosamente motivados: com base numa referência à
Divindade, decide-se aquilo que é justo entre os homens. Ao contrário doutras
grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado duma revelação. Mas apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objetiva e subjetiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus. Aqui deveria vir em nossa ajuda o património cultural do Ocidente. Foi na base da convicção sobre a existência de um Deus Criador que se desenvolveram a ideia dos direitos humanos, a ideia da igualdade de todos os homens perante a lei, o conhecimento da inviolabilidade da dignidade humana em cada pessoa e a consciência da responsabilidade dos homens pelo seu agir. Estes conhecimentos da razão constituem a nossa memória cultural.
Ignorá-la ou considerá-la como mero passado seria uma amputação da nossa cultura no seu todo e privá-la-ia da sua integralidade.
A cultura da Ocidental nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma,
do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o
pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima do Ocidente. Na consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico.
Nesta noite além de olharmos para a realidade da política, representada por
esta Câmara que muito bem nos acolhe como espaço público. Percebemos uma segunda dimensão que une a muitos de nós: a Igreja Católica. Ela é o Corpo de Cristo, o Povo de Deus reunido. Um episódio na história da Igreja nos ajudam a entender como a Igreja, instituição se relaciona com a política. Em 1870 o Estado Pontifício foi eliminado pelas armas violentas de Vitor Emanuel II, na guerra de unificação da Itália. Este Estado dirigido pelo Papa surgiu naturalmente das inúmeras doações de terras na Itália, que muitos príncipes e famílias cristãs doavam ao Papa, por acreditarem nele e na Igreja. Esse Estado durou cerca de 1000 anos, e o povo que nele vivia repetia a frase “é bom viver `a sombra do báculo”.
A partir de 1929, com o Tratado de Latrão, assinado pelo Papa Pio XI e Mussolini, o território da Igreja ficou reduzido a 0,55 km quadrados de terra; um pequeno sitio dentro de Roma. Deste pequeno “corpo” o Papa Pio XI, e todos os seus antecessores desde 1870, “prisioneiros do Vaticano”, não abriram mão, pois assim como Cristo teve um corpo humano para salvar o mundo, a Igreja precisa também de um “corpo” terreno  para continuar a missão que o Salvador lhe confiou.
Este simples fato histórico faz-nos compreender que a presença da Igreja no
mundo ainda que por vezes é discreta, pequena e até perseguida como vemos no Oriente Médio é a Igreja que continua, misteriosamente a presença de Jesus Cristo, vivo e atuante no mundo.
Recentemente, o Santo Padre o Papa Francisco disse: “Na Igreja se entra pelo
Batismo, não pela ordenação sacerdotal ou episcopal, se entra pelo Batismo! E todos entramos por meio da mesma porta. É o Batismo que faz de cada fiel leigo um discípulo missionário do Senhor, sal da terra, luz do mundo, fermento que transforma a realidade a partir de dentro”. Nesta noite queremos louvar a Deus pela Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica e pelo Batismo que recebemos, afinal antes de sermos padres somos fiéis cristãos católicos. Desta maneira, como disse São Paulo somos um só corpo, se um membro do corpo é honrado, todos os membros são honrados (ICor 12,26). Sendo assim, todos os membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja são honrados por meio do nosso ministério sacerdotal nesta noite.
Por último queremos também dizer sobre o ser padre, afinal esta é nossa
específica vocação e a razão pela qual estamos aqui! Nesta semana celebramos a memória de S. João Maria Vianney que nasceu no pequeno povoado de Dardilly no dia 08 de maio de 1786 de uma família de camponeses, pobres de bens materiais mais ricos de humanidade e de fé. A certa altura do catecismo que o Cura D´rs escreveu ele afirmou: “Eis a mais bela Vocação do Homem sobre a Terra: rezar e amar! ”
Nesta noite a sociedade civil desta cidade de Franca publicamente reconhece
que muito mais importante que seguir uma profissão é viver como missão uma
vocação! E vocação não está ligado ao poder e ao dinheiro, porque só as coisas baratas e pequenas podem ser compradas pelos bens materiais deste mundo. Enquanto que a Beleza de uma vocação nasce da liberdade do coração do homem eo torna verdadeiramente feliz e realizado.
“Oh! Como é grande o Sacerdócio! Não o compreenderemos bem, a não ser
no céu... Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de susto, mas de amor!” afirmou São Joao Maria Vianney. Neste instante gostaríamos de recordar também que o ministério sacerdotal tem uma dimensão universal e publica. Ora, Se o Sacerdote é outro Cristo no meio do mundo e Cristo veio salvar a todos, logo o sacerdote não é somente para os fiéis católicos, antes realiza a caridade de Cristo a toda a humanidade. Por isso, mencionamos entre muitos outros padres que passaram por Franca, destacamos três beneméritos não somente da Igreja Católica mais de toda a sociedade francana. Primeiramente, recordamos do Revmo. Pe. Joaquim Martins Rodrigues (1805-1852), primeiro vigário da Freguesia de Franca
pertencente a Diocese de São Paulo. Na sequência, o grande empreendedor Mons. Cândido Martins da Silveira Rosa (1860 a 1903) – Pároco da Matriz Imaculada Conceição e mentor do hospital Santa Casa de Misericórdia, do Jornal “Aviso da Franca”, e iniciador do atual prédio da Catedral. Bem como Frei Germano de Annecy (1881 -1890), que veio a Franca por convite de Mons. Rosa no final 1881, responsável pela construção do relógio do sol presente na Praça Nossa Senhora da Conceição, sendo o único do país e o segundo do mundo!
Toda vocação sendo um chamado pessoal também exige uma resposta pessoal. Em MT. 3, 13-19 observamos que Jesus chamou aqueles que ele quis. Ora, se somos padres é por chamado divino! Nesta noite agradeçamos a Deus porque Ele não cessa de desejar estar presente no mundo por meios dos sacerdotes. Como disse ao seminarista o Papa Bento XVI, “sim o sacerdócio católico tem futuro!”. Enquanto a humanidade estiver sobre a terra e precisar de Deus, necessitará de homens que levem a presença de Jesus, Deus-Conosco. Por isso, que esta noite se transforme em um momento de ação de graças a Deus! Muitos nos desejaram parabéns! Nós acolhemos e reconhecemos, mais na verdade, “os parabéns” devemos atribuir e
oferecer a Deus. É Ele a origem e a causa do nosso sacerdócio!
Por fim, uma última frase do nosso padroeiro, o Cura D´rs: “Se o mundo
tivesse fé enxergaria no sacerdote Deus. Como enxerga atrás do vidro uma luz”.
Reconhecemos com gratidão a Deus que esta homenagem só é possível em um meio as pessoas que tem em seus corações a alegria da fé. Pois reconhecem em meio a fragilidade dos homens-sacerdotes Deus que atua, ama, perdoa, ensina e caminha junto. Desta maneira, muito mais que ouvir o barulho de uma mídia sem fé que só enxerga e só faz notar a figura do padre, quando a sua fraqueza se manifesta, nós, pessoas de fé e de bem, nesta noite manifestamos que percebemos e sabemos ouvir o silencioso trabalho de uma grande floresta de sacerdotes que crescem e ajudam a humanidade com a caridade no dia a dia e não chamam para si qualquer atenção.
Que nossa cidade e nosso Brasil cresça em fé para que Jesus seja adorado!
Obrigado!
 
Pe. Leo C. Beneti