Quarta-feira de cinzas

A festa da Páscoa nasceu no Antigo Israel com uma pergunta: “O que significa este rito?” Para os judeus, significava a passagem salvífica de Deus e a passagem dos hebreus da escravidão para a liberdade.

Assumida por Jesus e pelos cristãos, também perguntamos na festa da Páscoa: “O que recordamos nesta noite?” Celebramos a paixão, morte e a ressurreição de Cristo, sua passagem deste mundo ao Pai: ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação (cf. Rm 4,25; 1 Cor 15,3-4). Morte e ressurreição de Cristo constituem o mistério pascal, que se prolonga na Igreja com um ritmo anual, que é a festa da Páscoa, semanal, que é o domingo, e cotidiano, na celebração diária da Eucaristia. Este evento está presente na liturgia e na vida, que é a passagem da culpa para a graça. O que nos salva é a Páscoa de Cristo, sua imolação e ressurreição, e nossa páscoa, quando procuramos vencer o pecado e viver a vida nova.

A Quarta-feira de cinzas abre a Quaresma, nossa caminhada rumo à Páscoa, com o apelo: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, no rito da bênção e imposição das cinzas. Metanóia vem da língua grega, e significa mudança da mente e do coração. É afastar-se do caminho errado e do pecado e voltar-se para Deus.

Na profecia de Joel, assim diz o Senhor: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2,12-13). O que nos impulsiona para a conversão é a bondade de Deus, sua majestade e misericórdia cativam e seduzem o ser humano no caminho de volta. “Rasgar o coração” é uma imagem forte. Além das suas funções fisiológicas, na tradição bíblica e cristã, o coração indica a profundidade do ser humano, sua interioridade, “lugar de abertura e da decisão ou não para Deus e para os irmãos” (CIgC, 368).

Conversão é voltar-se para Jesus Cristo, acolher a sua mensagem e a sua proposta de vida. É fixar os olhos naquele “que não cometeu nenhum pecado” (2 Cor 5,21), o Cordeiro de Deus imolado, na figura sofredora do Filho de Deus, crendo no seu Evangelho, no mistério da sua cruz, e nele contemplar o profundo amor do Pai.

 O gesto de imposição das cinzas lembra a nossa pequenez e a necessidade que temos de Deus e do seu perdão. É um convite à penitência e ao arrependimento sincero e à graça de Deus.

O Evangelho da Missa é um trecho do Sermão da montanha (cf. Mt 6,1-6.16-18): Jesus faz referência a três práticas penitenciais que faziam parte da piedade judaica e acolhida pelos cristãos: esmola, oração e jejum. No retiro quaresmal somos chamados: à um relacionamento mais intenso e profundo com Deus, através da oração pessoal e comunitária; a um relacionamento equilibrado comigo mesmo e com a natureza, através do jejum e da abstinência, deixando de comer algum alimento, vivendo a pureza, cultivando a alegria, a sobriedade, a paciência, o desapego, ordenando bem a vida e as coisas, segundo a vontade do Criador; a um relacionamento fraterno com os outros, através da prática da esmola, mas também da honestidade, amizade, paciência, perdão, diálogo, unidade e paz. Jesus nos ensina a praticar tudo isso de coração, superando a justiça dos fariseus, apontando uma penitência que deve brotar do interior.

Além da riqueza da liturgia, no Brasil a Campanha da Fraternidade se tornou instrumento para nos ajudar a celebrar a Quaresma. O tema deste ano trata da Fraternidade e Moradia, e o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). “Promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens essenciais a toda a população”, é o que propõe a Campanha da Fraternidade em 2026 no seu Objetivo Geral. Um gesto concreto de solidariedade na Quaresma é a oferta de doações em dinheiro, na coleta realizada nas missas do Domingo de Ramos, no dia 29 de março. A coleta da solidariedade é destinada aos pobres: 60% do total constitui, em nossa Diocese, o Fundo Diocesano de Solidariedade, gerido pela Cáritas, em vista de ser aplicado nas ações e projetos sociais diocesanos.

Deus, nosso Pai, “dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos convosco a casa do Céu” (Oração da CF 2026). Uma boa e santa quaresma para todos.

Dom Paulo Roberto Beloto,

Bispo Diocesano.